O mestre do som imaginário

Por Rodrigo Hammer

Estrelas cadentes e gênios incompreendidos pela Mídia têm muito em comum: quem testemunhou sua breve aparição, vive de recortes esparsos e “revivals” ao sabor da abnegação de um ou outro neófito blasé empolgado com o que descobriu ser digno de admiração. A comparação se aplica ao carioca Zé Rodrix, gênio de um passado glorioso no Rock Brasileiro, muito antes das patacoadas do nefando BRock, o ridículo Rock Brasileiro dos Anos 1980.
Egresso de formação erudita, Rodrix já no final dos 1960 demonstrava talento incomum para a MPB de vanguarda à bordo do até hoje hermético projeto Momento Quatro. Em 1970, passava a escrever o primeiro capítulo do Progressivo Brasileiro junto a Wagner Tiso e Tavito na obra-prima Som Imaginário, disco do grupo homônimo. Irrequieto, deixa o grupo no ano seguinte e após compor o hit Casa no Campo – entregue à voz de Elis Regina em gravação antológica – une-se a Luiz Carlos Sá e Gutenberg Guarabyra no trio Sá, Rodrix e Guarabyra. Foi com os companheiros, que fundou o curioso Rock Rural, gênero desdenhado pela Crítica da época, mas atipicamente prezado por um público universitário em plena sintonia com a proposta libertária do grupo cujo melhor momento ainda é o álbum Terra, de 1973, possuidor do clássico Mestre Jonas.
Zé Rodrix atravessou uma carreira sinuosa de sucessos e tiros no escuro, chegou a fazer parte do impagável Joelho de Porco e foi combater nas trincheiras comerciais da Propaganda onde montou o estúdio de jingles A Voz do Brasil. Ultimamente, exercia o dom de escritor através da complexa Trilogia do Templo. Um criador de múltiplas facetas, produtor de trilhas-sonoras, renascentista por vocação que deixa lacuna irremediável na paupérrima cultura brasileira contemporânea. Que os deuses tenham piedade de nós!

 
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